sábado, 14 de novembro de 2009

ENTRE LOUVORES E AMORES, CAP.4

Roberto, Marília, Vovó Alba e Maria chegam em casa. Observam a sala e vem as janelas encostadas. Um vento faz balançar as cortinas, mas nada que tire a tranquilidade da família. Ao observar o barulho, Amanda, que já estava dormindo, vai de encontro a família, quando assim pergunta a seu pai:

- Pai, onde vocês estavam?

- Minha filha, nós fomos na casa da Maria de Lourdes e do Walmor, lá em Santana. Nos chamaram para uma reuniãozinha de amigos. Estava o Olavo, a Patrícia, a Sabrina...

- Papai, você podia ter me avisado, fiquei preocupada.

- Calma filha, liguei para você no celular e você não atendeu.

- Estava no metrô, acho que o barulho estava forte na estação e não ouvi. Tudo bem. Vovô, que prato é este, cheio de salgadinhos?

- Ah, minha amadinha, a Lourdes mandou pra você e pra Sílvia. Olha, uma delícia, então as empadinhas de camarão feitas de massa podre, tá uma misericórdia de bão, ahahahaha. Mas, onde está a Silvinha?

- Saiu, só pra variar, vovó. Não disse onde ia e saiu daquele jeito que a senhora já conhece.

- Ah, sei, soltando fogo pelas ventas. Que menina geniosa, não sei a quem puxou.

- Mamãe, tava boa a festa?

- Òtima, minha filha. Todos mandaram abraços e beijos a você, estava muito animado, todos riam, conversavam, cantavam. A reunião estava maravilhosa, só faltou você e o pastor Cláudio e a família.

- Mamãe, pensei em ligar para ele. Era para saber se vocês não estavam lá na casa dele, ou então se não tinham ido para alguma reunião na igreja. Mariazinha, você tá bem, minha maninha?

- Estou sim, Amandinha. Eu conversei bastante com o Léo, com as meninas que estavam na festinha. Falamos sobre roupas de bonecas, livros, músicas. Maninha, você sabe que nós vamos cantar domingo na igreja?

- Sei sim, olha, vou fotografar e filmar tudo. O vídeo vou colocar no Youtube e as fotos, no meu Orkut, claro. Imagina se vou perder de ver uma artista gospel cantando como você. Uma estrelinha de Jesus.

Marília chamam todos a cozinha. Preparou um chá de camomila e um leite quentinho para Maria tomar. Amanhã seria sábado, e sábado é dia de compras e também de organizar a casa. Botar em dia a bagunça da semana. Era dia de Roberto também levar o carro para lavar, se encontrar com amigos para conversar um pouco. Não era no boteco do bairro não, era em um café nas redondezas. E é claro, depois passar na casa do pastor Cláudio para tomar um outro café e conversarem. Assim era o sábado dos Nogueira.
Amanda iria aproveitar o dia para se encontrar com Lúcia Helena e ir ao cabelereiro. No dia do salão era de arrumar cabelo, fazer as unhas, massagem, tudo o que podia e com bom gosto. O destino era um novo cabelereiro, próximo da Alameda Santos. Ali elas foram. Depois de lá, foram até a loja de Úrsula, uma amiga de Lúcia que vendia roupas com bom gosto e estilo, na Vila Mariana.

Lucas tirou a manhã para ler. Depois da leitura, foi a casa de Maurício, seu amigo e também vizinho para convidá-lo a chamar a turma para o futebolzinho do sábado. É claro, futebolzinho depois das três da tarde, na quadra de soccer do bairro. Depois do futebol, a reunião seria na lanchonete do Patrício, um italiano muito animado que recebia Lucas e seus amigos com sanduíches de pernil de porco e muito refrigerante gelado.

São Paulo é uma megalópole, terceira maior cidade do planeta, carros e milhares de pessoas circulam de um lado para o outro. Tem diversão e grupos para todo mundo. Só fica em casa realmente quem assim deseja. O que poderia ser impossível acabou acontecendo. Depois de sair da loja, na Vila Mariana, Lúcia Helena e Amanda resolvem tomar um lanche em uma lanchonete. Se é casualidade ou não, acabaram parando na Moóca, pois estavam perdidas. O destino seria o Itaim Bibi e elas saíram da Vila Mariana e, conversando e rindo, acabaram chegando na Moóca. Lúcia Helena adorava pegar o carro e sair por aí, conversando e rindo muito. Ficaram com sede e fome e resolveram então entrar naquela lanchonete. Qual foi a surpresa. Acho que já dá para imaginar.

Lucas estava em uma mesa com Maurício e Cassiano. Assim que entrou na lanchonete, Amanda bateu o olho em Lucas. E Lucas, que conversava com os amigos, parou de falar e também ficou olhando para ela. Uma conversa começou ali mesmo. Lucas se levanta e vai em direção a Amanda:

- Amanda, perdida na Móoca. O que devemos a honra da visita?

- Lucas, de fato, você tem razão. Eu e minha amiga, a Lúcia Helena, estamos perdidas mesmo. Estavamos na Vila Mariana, nos perdemos e viemos nos achar aqui na Moóca. Estamos com fome. Aqui o lanche é bom?

- É sim. Vocês não querem sentar conosco à mesa?

- Lúcia, você aceita sentar com os rapazes?

- Claro, Amanda, rapazes, imagina... bem, fica quieta Lúcia Helena...

- Cassiano e Maurício, quero apresentar duas amigas, Amanda e Lúcia Helena.

- Amanda, me chamo Maurício. É um prazer conhecer vocês.

- Me chamo Cassiano, também é um prazer conhecê-las.

- Obrigado rapazes. Em meu nome e em nome da Lúcia, agradecemos.

- Amanda, não faça cerimônia amiga, deixa eu perguntar: Qual é o menu da casa, qual é o melhor sanduíche?

- Lúcia, pra você, sugiro o sanduíche de pernil, com uu refrigerante no capricho, o que acha?

- Cassiano, hummmm. Se é a sua sugestão, se é tão boa quanto você é.. bom, vou aceitar.

- Você é animada, Lúcia Helena.

- Sou mais do que você imagina, Cassiano.

- Lúcia, controle-se, amiga. O que os rapazes vão pensar de você.

- Nada, Amanda. Sou direta no ponto. Não é sempre que se encontra um gato assim, você não acha?

- Lúcia Helena, estou ficando com vergonha.

- Calma meninas. Não precisa ficar com vergonha não. A gente entende.

- Obrigado, Maurício. Você é muito gentil.

- Vocês vão a alguma balada. Estão super bem arrumadas?

- Não, Lucas. Nós fomos tirar o sábado para nos arrumar. Sábado é dia de salão de beleza, de roupas, de cochichos e papos entre meninas. Você entendeu...

- Claro, Amanda. Nós fomos jogar bola com a turma. Acabou o jogo, tomamos um banho, nos trocamos e viemos para cá. Estamos sempre aqui, nos sábados, por este horário. Quando quiserem vir de novo aqui na Moóca, é só nos telefonar.

- Humm, é claro que eu quero vir. E você, Maurício, foi jogar bola também?

- Fui sim, Lúcia. Hoje marquei cinco gols, estava inspirado.

- Imagino, aliás, inspiração para você não deve faltar. Não te deve faltar nada.

- Lúcia Helena!

- Ai, Amanda, deixa eu falar, amiga.

- Calma, Amanda, deixa ela falar. Olha, Lúcia, me falta sim é alguém para dar uma volta, pegar um cinema, conversar, sair para jantar.

- Eu adoro ir ao cinema, jantar então é comigo mesmo. E olha que em São Paulo não faltam restaurantes bons.

- Você é gaúcha, Lúcia Helena?

- Sou, sou do interior do Rio Grande do Sul. Já ouviu falar em São Borja. Terra do ex-presidente Getúlio Vargas, terra de Leonel Brizola, fica quase na fronteira com a Argentina.

- Já ouvi falar sim. Eu nasci em São Gabriel, também no Rio Grande do Sul.Conhece?

- Não acredito! Morei em São Gabriel, meu pai é de São Gabriel. Minha mãe é de São Borja. Eu vim para Porto Alegre para estudar. Fiz faculdade e depois me mudei para São Paulo. E tu, Maurício. Mora aqui em São Paulo há muito tempo?

- Sim, moro aqui há 12 anos. Vim para São Paulo com 12 anos. Meu pai era militar. Nasci em São Gabriel, fiquei lá até os cinco anos, depois meu pai foi para Curitiba, ficou lá por sete anos. Depois veio para São Paulo, cheguei aqui com 12 anos de idade. Dois anos depois, quando fiz 14, meu pai faleceu. Minha mãe e meu irmão, Tiago, quiseram ficar aqui em São Paulo. A gente mora também aqui na Moóca e não saiu mais daqui. Eu sou paulistano de coração. Gosto muito de São Paulo.

- Eu estou aqui em São Paulo há cinco anos. Adoro São Paulo. É a minha cara. Tem tudo. Hoje meus pais moram em Porto Alegre. Mas eu gosto muito daqui. E você, Cassiano, é daqui também ou veio de fora?

- Eu nasci no Piauí. Não sei o nome da cidade, mas vim bebê para São Paulo. Primeiro veio o meu pai, depois minha mãe com os outros sete filhos. Aqui estou. Não sei nem a cidade onde nasci. Nós somos oito filhos. Meu pai se separou da minha mãe logo que ela chegou aqui em São Paulo. Eu não o vi, nunca mais. Não me lembro da imagem dele. Minha mãe foi pai e mãe. Nos criou. Depois casou de novo, com o Raimundo, que veio da Bahia para trabalhar aqui em São Paulo. E esta é a minha vida.

- Bem, só pra participar da conversa, me chamo Lucas Souza. Nasci em Florianópolis e vim adolescente para São Paulo. Também gosto muito desta cidade. É uma metrópole que junta pessoas de várias partes do mundo. Eu fui a Florianópolis no ano passado, visitar amigos. Eu gosto de ir lá no verão, aproveitar as praias. E você, Amanda, você nasceu onde?

- Eu sou carioca. Nasci no Rio de Janeiro. Mas cresci aqui no Itaim Bibi. Meus pais eram servidores públicos e vieram transferidos para São Paulo. Aqui cresci. Tenho duas irmãs, a Sílvia e a Maria. A Sílvia também nasceu no Rio de Janeiro, já a Maria nasceu aqui em São Paulo, é paulistana da gema. Minha avó, a vó Alba, é mineira, mas também morava no Rio de Janeiro. O meu avô, Horácio, era português. Ela é mãe de meu pai. Não conheço os pais de minha mãe. Minha mãe foi criada por uma tia, chamada Elisa. Esta tia morreu logo que meus pais se casaram. Mamãe me conta que seus pais morreram e ela ficou órfã. Por isso foi criada por esta tia, que era solteira e não tinha filhos. Era a irmã mais velha de minha mãe, que também morava no Rio de Janeiro.

- O papo tá bom, né amiga Amanda, mas vamos continuar com a paquera. Maurício, você tá solteiro então, e aí, me dá o teu celular...

- Nossa, você é engraçada, Lúcia. Gosto de mulheres engraçadas. Claro que te dou o meu celular sim. Você me dá o seu?

- Ora, é evidente. Mas pra começar o celular, viu, ah, ah, ah, ah...

- Lúcia, que fiasco, amiga!

- Fiasco nada. Não tem fiasco aqui não. Estou sendo moderna, clean, entende? Eu gostei do papo do Maurício. Sem contar que ele é um gato.

- Mas você diz isso na frente do rapaz. Que vergonha, amiga.

- Amanda, ela é animada, não repare. É divertido. É bom para animar a nossa noite. Nã que a noite não esteja boa. Está ótima, mas precisamos rir um pouco. Você não acha?

- Ah, Lucas. Minha amiga é muito direta, eu não sou.

- Também não sou, Amanda.

- Lucas, eu gosto de conversar, mas sou do silêncio.

- Eu também, Amanda. Eu amo primeiro no olhar, depois eu amo nas palavras.

Um silêncio fica naquela mesa. Todos ficam se olhando, sem entender nada. Lucas olha para Amanda. Amanda olha para ele, dá um sorriso discreto e baixa a cabeça. Lucas permanece olhando para o rosto negro e belo de Amanda. Os sanduíches chegam, Patrício caprichou naquela noite. Todos comeram, riram, se divertiram muito, até a hora da lanchonete fechar, e já era quase meia noite. Todos ali se despedem. Lucas se despede com um beijo, um beijo no rosto de Amanda. Lúcia Helena também se despede com um beijo no rosto de Cassiano e de Maurício. Claro, ela troca o telefone com o rapaz, prometendo o telefonar durante a semana. Assim que entram no carro de Lúcia, para tentar voltar ao Itaim Bibi, onde deixaria Amanda em casa, Lúcia começa o falatório:

- Ah, que sanduíche de pernil maravilhoso, não é Amanda?

- Lúcia Helena! Você acha que me engana. O que você menos ligou foi para o sanduíche.

- Liguei sim. O melhor do sanduíche era os olhos verdes do Maurício. Que cara lindo, meu Deus do céu. Olha, se não fosse uma moça séria, eu ia avançar em cima dele. É amigo do Lucas não é? E olha, o Lucas também é um lindinho não é?

- Você acha, Lúcia?

- Se eu acho. Não só eu acho. Você também acha.. bendita a hora em que a gente se perdeu e foi parar na Moóca. Olha, acho que vou mais seguidamente à Moóca. A Moóca é um paraíso dentro de São Paulo.

- Lúcia Helena, quanto tempo vai durar este rolo com o Maurício?

- Sei lá. Enquanto ele me der corda, eu vou que nem bonequinho, vou andando na estradinha dele, ah, ah, ah.

- Ai, amiga. Não vai bagunçar com o cara. Você viu que ele é amigo do Lucas, meu colega de faculdade. Que vergonha. O Cassiano também é um rapaz bacana, você não achou?

- Ah sim, vou apresentá-lo a Simone. A Si tá louca pra arrumar um namorado. Será que vale fazer uma ponte deles?

- Não sei, amiga. Eu não me meto em confusão. A Simone também é meio maluca, meio irritada. Vá que ela não goste do cara e dê um bolo nele. O ofenda. Sei lá, o que sai da cabeça da Simone é uma grande pergunta.

- Lúcia. O que você achou mesmo do Lucas? Você achou ele um rapaz legal?

- Achei. Acho que ele é o teu número, amiga. Vai em cima mesmo.

- Lúcia, você sabe que não sou assim. Sou de consultar, orar a Jesus.

- Então ore, amiga. Ore e peça para Jesus te mostrar que ele poderá ser o teu namorado. Quem sabe ele não é o teu namorado?

- Eu acho que sim, acho que não. Fico com medo de fazer isso. Sei lá, o fim com o Valter foi tão doído. Valter me fez sofrer um pouco. Eu já o esqueci. O perdoei na verdade, mas tudo bem. Estou me sentindo assim, sozinha. Não sou uma moça assim, de ficar cada dia com um rapaz. Só namorei uma vez, e foi com o Valter. Foram quase dois anos de namoro. Foi bom. Valter quis me tirar a virgindade. Mas eu não aceitei, não deixei que ele me levasse para a cama. Não aceito isto não. Só quando casar.

- Entendo, Amanda. Você está certa. Nós temos que nos valorizar. Claro que eu fiquei muito a fim do Maurício. Mas também não vou levá-lo pra cama assim não. Eu quero também namorar. Estou cansada de ficar com um aqui, outro ali. Já cansei de rolar na mão dos homens. Tudo bem, fui eu que dei espaço, que dei abertura. Mas agora, quero ser levada à sério, sabe?

- Mas você assusta os homens, você fala as coisas na cara deles e isso os assusta.

- Será?

- Tenho certeza, Lúcia. Mas se este é o teu jeito, tudo bem, a gente tem que se aceitar.

- Ah, Amanda, é das quietinhas que eles gostam mais.

- Pode ser, como pode não ser também. Aliás, entender cabeça de homem é complicado não é, amiga?

Nenhum comentário:

Postar um comentário